VINCULUM — Um fim e um novo começo

Fev 24, 2026 | Notícias

No dia 23 de Fevereiro, a FCSH acolheu a a sessão de encerramento do projecto VINCULUM, coordenado por Maria de Lurdes Rosa, onde marcou presença o Reitor da Universidade NOVA de Lisboa, Paulo Pereira, a Directora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Alexandra Curvelo, e o Director do IHC, Luís Trindade. Vítor Cardoso (Instituto Superior Técnico) e Henrique Leitão (Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, FCUL), ambos beneficiários do European Research Council (ERC), foram os oradores convidados.

Vítor Cardoso, professor na área da Física e Director do Centro de Gravidade do Instituto Niels Bohr (Dinamarca), falando a partir de Barcelona, começou por se apresentar e referir que “pensa em questões grandes” como “singularidades cósmicas, estrelas, buracos negros e, muitas vezes, a natureza do tempo”, antevendo a questão “qual é o ponto de contacto com alguém que estuda morgadios, heranças e negócios familiares”? A resposta mais imediata para este contacto com Maria de Lurdes Rosa e o VINCULUM é a curiosidade, acrescentando que ele “quer perceber como funciona o universo — a nível de leis universais que são descritas, por norma, matematicamente—, para aprender, prever e ser mais enquanto pessoa”, enquanto que as ciências humanas querem perceber as leis humanas, “os padrões que nos orientam e que nos fazem comportar de forma diferente em situações diferentes e perceber [tal como ele] os detalhes de certa função, como funciona o sistema”. Portanto, “a nível científico tudo nos une”. Querer saber mais é um dos grandes privilégios de usufruir de uma bolsa ERC, que permite “estar em contacto com a investigação mais fascinante que existe”, muitas vezes sem aplicações imediatas. Outro ponto de contacto é a “vontade de fazer bem, de deixar um legado que venha do próprio projecto”, esclarecendo que todas as pessoas querem fazer bem o seu trabalho, mas nem todas as pessoas estão preocupadas com “o legado menos tangível, mais estético, mais sublime e mais transformador e duradouro”.

Por sua vez, Henrique Leitão, Director do Departamento de História e Filosofia da Ciência da FCUL e investigador do Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia, aproveitou esta ocasião para fazer um repasso histórico pelas características do sistema de financiamento ERC. Atribuiu o êxito do programa ao facto de “aquilo que era um sistema para financiar ciência e trabalho académico de alto nível, transformou-se no sistema de reconhecimento de qualidade académica mais robusto e mais consensual que existe na Europa; e tornou-se, para muitas pessoas e instituições, na alavanca de transformação das instituições mais potente, a tal ponto que aquilo que era um sistema de financiamento individual se tornou também num sistema de avaliação das instituições”. Realçou também o carácter distintivo do ERC pelo facto de procurar “descobrir o talento científico, com as pessoas que têm capacidade para introduzir uma diferença, com a esperança de que, apoiando estas pessoas com total liberdade (…) , isso introduzisse uma mudança nas instituições” além de que, contrariamente a outros sistemas de financiamento, este é muito generoso, “detecta a pessoa que está em condições de receber [a bolsa]” e “protege o grantee”, já que quem vence de uma bolsa ERC é protegido de três maneiras: pelo pagamento generoso de overheads à instituição, “porque o grantee cientificamente só responde a Bruxelas e porque a bolsa é completamente móvel”. “A combinação de uma selecção muitíssimo exigente com a protecção do grantee são os dois elementos que explicam o segredo e sucesso deste sistema”, concluiu. Apresentou ainda alguns dados estatísticos: entre 2003 e 2024, foram avaliados mais 130 mil projectos, provenientes de 49 países, com investigadores/as de 162 nacionalidades; destes, foram financiados quase 17 mil projectos, com uma taxa de aprovação de cerca de 12%, distribuídos por 35 países e com grantees de 97 nacionalidades, com o valor total aproximado de 29 mil milhões de euros. Em Portugal, foram aprovados 197 projectos com 310 milhões de euros. Há, portanto, muito espaço e oportunidade de crescimento em Portugal, sendo necessária uma “descomplexificação” e uma mudança na “disposição geral dos académicos portugueses”.

 

 

Após as apresentações dos convidados, teve lugar a estreia do documentário “VINCULUM: um caminho de investigação científica / a journey of scientific research”, realizado por João Esteves e co-produzido por Rita Sampaio da Nóvoa. Como explicou Maria de Lurdes Rosa, o documentário tem como objectivo “deixar um testemunho de uma actividade científica longa e que envolveu muita gente”, além de “multiplicar as candidaturas e o interesse dos mais jovens investigadores sobre estas bolsas”. Além deste legado visual, Maria de Lurdes Rosa anunciou ainda um outro: o programa de comunicação de ciência “Manter Vínculos com a História: Passados Longos para um Presente Consciente” que reúne um conjunto de iniciativas que estão ainda em curso e outras que se vão iniciar em breve. Uma dessas iniciativas é a participação no Mercado Quinhentista de Machico, em Maio, cujo lema em 2026 vai ser “Gentes do Povoamento”. Nessa ocasião, vai ser lançado o “Tombo I da Igreja de Machico”, “o mais antigo registo documental conhecido sobre estas paragens atlânticas”, descoberto pelo pároco local, e que foi restaurado, digitalizado e transcrito pela equipa do VINCULUM, com o apoio do Direção Regional dos Arquivos, das Bibliotecas e do Livro. O documento “expõe o pulsar dos primórdios, um tempo de auspiciosos desígnios, mas muito poucas certezas, em que os vínculos, terrenos e espirituais, se fazem presença”.

Posteriormente à sessão, Maria de Lurdes Rosa explicou-nos que o princípio científico subjacente a esta nova fase da sua investigação e de novos projectos participativos é a “ideia de que, para a compreensão correcta e complexa do presente, não nos podemos restringir a um passado recente”, acrescentando que “a alteridade das sociedades de Antigo Regime, no que toca à organização e lógicas, tem que ser conhecida e estudada, fora de uma visão de progresso histórico, e recorrendo a formas analíticas correctas, como a antropologia histórica.” Esta perspectiva não só “evita leitura genealógicas e identitárias do presente, como nos permite compreender melhor as sociedades que, no mundo actual, mantêm uma estruturação diversa à que foi inaugurada no Ocidente europeu no século XVIII.” Além disso, há vantagens em “ultrapassar barreiras cronológicas que são em grande parte produtos ideológicos, como o esquema de épocas Medieval—Moderno—Contemporâneo”.

 

 

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