Fernando Rosas: o actor da história que estudou

Abr 23, 2026 | Destaque, Notícias

Reportagem de Rita Hasse Ferreira / Fotos de Diana Barbosa

 

“É muito importante tornar a história da democracia em Portugal muito presente”, diz o historiador Fernando Rosas, 80 anos de vida completados a 18 de Abril. Homenageado a 20 de Abril na NOVA FCSH, onde há 36 anos co-fundou o Instituto de História Contemporânea (IHC), o pioneiro da historiografia do Estado Novo e do Salazarismo em Portugal não hesita em convocar a urgência da história “nestes tempos enevoados”.

Referindo “o império da lei do mais forte sobre o mais fraco, a cavalgada da direita fascizante, o controlo de uma nova tecno-oligarquia e a produção social da indiferença”, o primeiro Professor Emérito da NOVA FCSH garante que “é urgente entender as condicionantes históricas destes fenómenos” para encontrar caminhos que salvaguardem e renovem a democracia. É preciso “estudar para agir e agir para voltar a estudar”, defende, prometendo: “Enquanto não me falecer juízo na cabeça e força nas pernas, contem comigo”.

40 anos depois da publicação de O Estado Novo nos Anos 30, e do fundacional colóquio internacional Estado Novo, das Origens ao Fim da Autarcia, realizado em Novembro de 1986 na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, a conferência de homenagem Reler Fernando Rosas propôs-nos revisitar “uma obra absolutamente essencial, de várias décadas”, recordou, na abertura, Alexandra Curvelo, historiadora de arte e Directora da NOVA FCSH.

Um dos objectivos era perceber de que forma as ideias, teses e conceitos propostos por Fernando Rosas permanecem actuantes para o futuro, através de um formato original de debate em que 11 obras centrais do historiador, que continua a escrever e publicar, foram re-analisadas por outros tantos investigadores e investigadoras, a maioria ex-alunos e orientandos do agora reformado professor1.

Numa re-leitura de Salazar e o Poder: a Arte de Saber Durar (2012), o Director do IHC, Luís Trindade, destacou a forma como o Estado Novo conseguiu absorver as várias direitas portuguesas, sugerindo também que se releia a própria escrita do autor e se analise a complexidade da linguagem que utiliza para traduzir as ambivalências do regime ditatorial que vigorou em Portugal entre 1933 e 1974. Exemplos disso seriam expressões que cunhou, como “terramoto delgadista” ou “panela de pressão” (metáfora da ebulição social que concorreu para o 25 de Abril), ou o uso de pares de adjetivos como “totalitário” e “conservador”, que nunca se anulam, criando tensão.

 

Legado único de abertura de campos na historiografia

“Esforcei-me por ter distância critica em relação a estes fenómenos, mas soube sempre a que lado da história pertencia”, observou o homenageado, a quem nunca “passou pela cabeça comparar o incomparável”. Foi preso duas vezes pela PIDE, em Caxias e em Peniche, onde desde 2024 se encontra o Museu Nacional Resistência e Liberdade, que ajudou a criar. Foi outra vez preso já depois do 25 de Abril, pelo Comando Operacional do Continente (COPCON)2.

Rosas foi actor da história que estudou. Uma história que (se) quer como prática cidadã, oferecendo matéria-prima para o uso público do passado, “contra a abulia e a desmemória”. Na década de 1980, Portugal parecia amnesiado. O ponto de partida, recorda, foi a perplexidade perante a longevidade do Estado Novo: “como foi possível um regime com tais características durar 40 anos?”

“Se há um Estado Novo de Fernando Rosas, e há, está na teoria do triplo equilíbrio económico e social” do regime – assente na contenção/repressão e na arbitragem de interesses conflituantes –, afirma Álvaro Garrido, professor na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e investigador do CEIS20, convidado a reler O Estado Novo nos Anos 30 (1986).

Além do protagonismo do autor de O Estado Novo (1994) na historiografia do regime autoritário, a mestranda e doutoranda de Rosas Irene Flunser Pimentel destaca também uma outra forma de “fazer escola, de forma planificada”, introduzindo estes estudos na licenciatura, mestrado e doutoramento em História, reforçando a componente curricular, mobilizando alunos para os ciclos de ensino seguintes, levando-os para os arquivos e fundando o Instituto de História Contemporânea. Prémio Pessoa em 2007, a investigadora do IHC e estudiosa da polícia política do Estado Novo, ficou conhecida como a “senhora da PIDE” entre os funcionários da Torre do Tombo.

 

 

“Um outro tempo” na NOVA FCSH

“Não havia história do Estado Novo antes”, confirma Maria Fernanda Rollo. “Ninguém se atrevia a discutir o fascismo e o regime”, atesta a historiadora, docente e ex-secretária de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Aluna de Rosas em 1986/87, “numa altura em que a História Contemporânea era vista por alguns nesta casa como ‘essa espécie de jornalismo’”, elogia-lhe a “tremenda intuição histórica”, adiantando que “rasgou inúmeros horizontes e marcou a renovação da historiografia do século XX”.

Nas décadas de 1980 e 1990, as instalações da NOVA FCSH não eram as melhores. Fernando Rosas era um professor assíduo e pontual, e as aulas começavam antes da hora e continuavam depois, no jardim ou na pastelaria Fátima, por exemplo, como lembra Luís Nuno Rodrigues, Director do Departamento de História do Iscte – Instituto Universitário de Lisboa e investigador do CEI-Iscte. Aluno de licenciatura e mestrado de Rosas, Rodrigues vê nele o educador cujo papel extravasa a sala de aula. “Era um outro tempo, quando era possível interessarmo-nos a sério pelos alunos”, reflecte o próprio Fernando Rosas, referindo a turmas de 30 alunos e as suas quatro ou cinco horas de carga horária semanal.

Entre uma década e a outra, chega à Avenida de Berna Pedro Aires Oliveira, hoje Professor Associado com agregação e coordenador do mestrado em História na Esfera Pública na NOVA FCSH, que acabara de ter “o primeiro contacto com os dotes oratórios de Fernando Rosas” num comício partidário n’A Voz do Operário, em Lisboa. O livro de 1988, O Salazarismo e a Aliança Luso-Britânica, que agora releu, “foi uma lufada de ar fresco”, encorajando-nos a situar os actores envolvidos numa trama muito mais vasta do que as propostas dos estudos diplomáticos de então, afirma o atual Director das Bibliotecas da faculdade.

 

 

Compreender o presente para conhecer o passado

“O complexo estudo comparativo de diferentes sistemas ditatoriais da Europa do pós-Segunda Guerra Mundial” é o aspecto mais inovador do livro-síntese Salazar e os Fascismos (2019), refere, por seu lado, o investigador do IHC Luís Farinha. O ex-Director do Museu do Aljube – Resistência e Liberdade relembra igualmente os ensinamentos de Rosas sobre a existência de crises de autoritarismo semelhantes já no século XIX.

Para Mária Inácia Rezola, licenciada, mestre e doutorada em História Contemporânea pela NOVA FCSH, e Comissária Executiva das Comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, a contribuição mais marcante do historiador em Ensaios de Abril (2023), que explica como o regime de Salazar caiu, é a defesa da Revolução dos Cravos como origem concreta da democracia portuguesa. Nas palavras do próprio, “não existe democracia em Portugal apesar da Revolução, existe democracia em Portugal por causa da Revolução”.

“Fartei-me de saber coisas sobre mim próprio”, comentou Fernando Rosas no final de um intenso dia de reflexão no auditório B1 da Av. de Berna n.º 26. E deixou um alerta sobre “a exploração e a manipulação da crise do capitalismo tardio”: “É preciso perceber que isto ainda vai piorar antes de melhorar. Como se dizia nos meus tempos de estudante, não tenham medo de estar em minoria porque, nas esquinas da História, a minoria porfia e transforma-se em maioria”.

 

 

1 Após a jubilação (aposentação obrigatória da docência no Ensino Superior), em Abril de 2016, Rosas continuou a leccionar a unidade curricular de História dos Fascismos.
2 O Comando Operacional do Continente (COPCON) foi instituído em 1974 para “criar condições para que as forças armadas possam garantir o cumprimento dos objectivos do seu programa, apresentado à Nação em 25 de Abril de 1974” (in Diário da República).

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