Chamada aberta para a Revista de História das Ideias: Culturas do Fogo
Fev 6, 2026 | Destaque, Sem categoria

Culturas do Fogo
Prazo: 30 de Setembro de 2026
O fogo ocupa um lugar central e ambivalente na história da humanidade. Concebido como um dos quatro elementos clássicos e mitologicamente representado como um dom arrancado aos deuses, encontra-se na base das civilizações humanas, ao proporcionar lume, calor e luz que estruturam formas de sociabilidade, de relação com a natureza e de expressão simbólica, subsistindo simultaneamente como fonte de perigo e destruição. Como condição da vida humana e ameaça à sua integridade, como signo de criação, conhecimento, purificação, violência e devastação, o fogo organiza práticas materiais e repertórios culturais, sejam eles políticos, jurídicos, científicos ou artísticos.
No decurso da história a relação entre as sociedades e o fogo foi sendo reconfigurada. Com a industrialização, a profissionalização da ciência, a afirmação do Estado moderno e a transformação dos espaços rural e urbano, o fogo foi desaparecendo dos contextos quotidianos e subordinado a novos regimes institucionais e tecnológicos, sendo enquadrado em larga medida como risco, acidente ou crime, para além de reação química. Práticas que desde sempre incorporaram o fogo na agricultura, na pastorícia, na vida ritual ou comunitária foram marginalizadas ou reguladas, transformando-o num fenómeno progressivamente entendido como “fator externo” às ecologias e sociabilidades.
Os incêndios contemporâneos podem ser compreendidos no quadro desta transformação. A escala e a frequência crescentes dos incêndios rurais não representam apenas o resultado das alterações climáticas e da transformação do território, mas também uma ruptura na relação entre o fogo e a sociedade. A este respeito, Portugal constitui um caso particularmente relevante, ocupando a primeira posição entre os países europeus com maior proporção de área ardida, com uma média anual três vezes superior à da Grécia, que ocupa o segundo lugar neste índice. Entre Julho e Agosto de 2025, as regiões Norte e Centro de Portugal foram afectadas por uma vaga de grandes incêndios que devastaram cerca de 250 mil hectares de povoamentos florestais, matos diversos e culturas agrícolas. Longe de constituir uma excepção, os fogos do último Verão evidenciam um padrão.
A investigação nesta área tem vindo a reconhecer o fogo como um fenómeno socio-ecológico, integrando dimensões históricas, sociais, políticas e culturais na análise da evolução dos regimes de fogo. Os grandes incêndios articulam-se com transformações de longa duração como a expansão de monoculturas florestais, o abandono agrícola, o alargamento do interface urbano-rural ou a perda progressiva de saberes tradicionais. De maneira mais geral, há ainda quem inscreva este processo numa nova era geológica – o Piroceno (Stephen J. Pyne) – para dar conta dos efeitos associados à transição energética da madeira e do carvão vegetal para os combustíveis fósseis.
Com base nestes avanços, este número temático pretende focar-se nos quadros culturais, epistémicos e políticos através dos quais o fogo tem sido experienciado, contestado e representado através do tempo. Ao apontar para uma história cultural do fogo, esta chamada visa recolher contributos para reexaminar os próprios termos do “problema dos incêndios” e suscitar formas alternativas de pensar a co-existência moderna com o fogo. O volume acolhe trabalhos oriundos da história, sociologia, antropologia, geografia, estudos culturais, humanidades ambientais, ecologia política, estudos artísticos e literários e áreas relacionadas. Encoraja-se o envio de pesquisas empíricas e historicamente informadas que abordem o fogo como fenómeno cultural em torno dos seguintes tópicos:
– Usos materiais, sociais e simbólicos do fogo agrícola, religioso ou ritual;
– O fogo como meio de acção política, protesto e conflito social;
– Culturas profissionais do fogo (bombeiros, técnicos, especialistas);
– O fogo na literatura e nas artes visuais;
– Constituição histórica de culturas científicas do fogo;
– História (cultural) da energia: iluminação pública, electrificação, ferrovia, etc.;
– Representações sociais e jurídicas do incendiário através do tempo;
– A emergência local de novos regimes de fogo;
– Persistências e descontinuidades nas culturas populares do fogo;
– Fogo e modernidade na Era do Antropoceno;
– As culturas do fogo no espaço ibérico e noutras geografias.
As propostas de artigos serão sujeitas a dupla revisão cega. Devem ser submetidas até ao dia 30 de Setembro de 2026, na plataforma Open Journal Systems e terão de respeitar as normas que se encontram publicadas na página web da Revista de História das Ideias.
Coordenadores: Frederico Ágoas (CICS.NOVA — NOVA FCSH) e Miguel Carmo (IHC – NOVA FCSH / IN2PAST)
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