novembro , 2026

Detalhes do Evento
Com vista à profusão de questionamentos, mais do que à sua resolução, a IV Counter-Image propõe explorar a terra não como tema, mas como onto-episteme. Prazo: 25 Maio 2026
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Detalhes do Evento
Com vista à profusão de questionamentos, mais do que à sua resolução, a IV Counter-Image propõe explorar a terra não como tema, mas como onto-episteme. Prazo: 25 Maio 2026
Counter-Image International Conference 2026
Como falar com(o) a terra? Conhecimentos situados, métodos para desnomear e visões do umbral
A pergunta “Como falar com(o) a terra?” não é uma metáfora, mas uma urgência política, ontológica e epistémica diante do colapso ecológico, do esgotamento das gramáticas antropocêntricas e dos modelos de representação do regime colonial-capitalista e o seu paradigma de expansão e ocupação da terra – a plantação, cuja lógica de extração, objetificação e extinção perdura (Le Petitcorps et al. 2023; Bastos 2020; Thomas 2019; Haraway 2015; Tsing 2015, McKittrick 2013; Mirzoeff 2011; Stoler 2008, 2016; Hartman 2007). Os Pós com que insistimos em nomear um mundo (ainda) não superado – pós-colonialismo, pós-modernismo, pós-humanismo estão a ser substituídos pelo prefixo Geo (Pratt 2025, 2022; Coelho & Ponce de Léon 2025; Krieger 2022; Ray 2019, 2026; Latour 2018; Povinelli 2016). O “advento do Geo”, esclarece Mary Louise Pratt (2025), marca uma mudança de escala (do global para o planetário), de imaginário (do político para o ecológico) e de tempo (do histórico para o “tempo profundo” geológico). Esta condição requer o questionamento do que tomamos por garantido e formas outras de pensar e produzir conhecimento que Gabriela Milone e Franca Maccioni, em “The Land of Language, the Language of the Earth” (2025), iluminaram como “geo-logia” (a linguagem da terra) e “geo-grafia” (a escrita da terra). Tal implica “falar com a terra” em vez de “sobre a terra” e em termos de “semelhança” em vez de “diferença” – um “trabalho de imaginação” e “experimentação”. De subjetivação em vez de objetificação (Kopenawa 2010). De fusão em vez de ocupação (Krenak 2022).
“Como falar com(o) a terra” é então inseparável da questão de como a terra foi constituída como objeto, recurso e imagem e disso nos fala o conto de Ursula K. Le Guin, Ela tira-lhes os nomes (1985). Sobre o impulso colonial de nomear e identificar sem cuidado, criando fronteiras artificiais, ao mesmo tempo que nos exorta a encontrar formas de falar com outras criaturas. Falar “com” ou “como” em vez de “sobre” sinaliza um deslocamento epistemológico e exige-nos repensar a sua nomeação, mediação e representação. E se a terra não fosse o referente do discurso, mas a sua condição? E se a possibilidade de falar com(o) ela abrisse um espaço entre o individual e o múltiplo, entre o território situado e a totalidade planetária? Esta dialética é metodológica: uma prática de “desnomeação” – de erosão da semântica objetificante, extrativista e extintora. Se a terra foi mapeada, renomeada e cercada (e a propriedade privada criada), ela é também resistência, cosmopercepção e ritual.
A IV Counter-Image propõe explorar a terra não como tema, mas como onto-episteme. Não a linguagem universal e logocêntrica (que teima em separar o sujeito do objeto), mas antes conhecimentos situados, enraizados nos territórios, corpos e relações que habitam as frestas da colónia e do capital. Não a semântica antropocêntrica da ciência positivista e da sua fictícia objetividade, mas antes métodos para desnomear que suspendam as taxonomias coloniais e permitam que o solo, o fóssil, o animal, a planta, a pedra, a árvore, o rio, a montanha, o líquen, o fungo se apresentem na sua singularidade irredutível e também em proximidade. Não a pseudo “visão de lugar nenhum”, mas antes as visões do umbral, aquelas fabricadas a partir do pial das casas das nossas avós ou nas horas crepusculares, em imagens dialéticas e incandescentes de sínteses impossíveis.
Palestrantes:
Gabriela Milone e Franca Maccioni (Universidade Nacional de Córdoba, Argentina)
Felipe Milanez (Universidade Federal da Bahia, Brasil)
Chamada para comunicações
Com vista à profusão de questionamentos, mais do que à sua resolução, a IV Counter-Image pergunta: o que significa pensar com(o) a terra em vez de sobre ela? É possível traduzir a linguagem da terra, dos animais, das plantas, dos minerais? É a “desnomeação” um método filosófico-estético? Como é que as visões do umbral suspendem os regimes extrativos de representação? Que práticas artísticas resistem, reconfiguram ou perturbam os regimes coloniais sobre a terra? Como dar vida a formas de pertença, cuidado e reparação com vista a um mundo pós-extrativista? Ancorada no território do Algarve, mas expandindo ligações a outros territórios, convidamos investigadores, artistas, ativistas e ensaístas a submeterem propostas que dialoguem com os seguintes eixos temáticos:
1. Conhecimentos Situados
Como e o que é que a terra lembra? Este eixo acolhe trabalhos ancorados em composições relacionais e geo-subjectividades que desafiam a “visão de lugar nenhum”, bem como a incerteza, a falha e a contradição, encorajando a conexão entre pesquisa e experiência vivida.
- Terricidio” (Millán 2024) e buen vivir
- Epistemologias artesanais (Farago et al 2025) e epistemologias do Sul
- Ecologias decoloniais, anti-extrativistas, ecofeministas, queer e trans
- “Ecologias exílicas” (Marder 2023)
- Cosmopolíticas indígenas e afro-diaspóricas
- O baldio e o quilombo/quilombismo (B. Nascimento 1977, A. Nascimento 1980)
- “Arquivos Insurgentes” (Biehl 2022) e contra-cartografias
- Lutas ambientais, os seus lutos e justiça multiespécie
- Crítica às taxonomias Lineanas e biopolíticas
- Histórias ambientais, políticas da paisagem e “piropolítica” (Marder 2020)
2. Métodos para Desnomear
Se nomear é colonizar, como podemos desnomear para aproximar? Este eixo acolhe trabalhos sobre geo-semânticas e experimentações metodológicas e pedagógicas que erodam o olhar extrativista e especista.
- Desnomear como método filosófico-estético
- Poéticas do silêncio e escuta profunda
- Caminhar como método e “ver com o corpo todo” (Cusicanqui 2015)
- Ontologias fósseis (Castro 2023), minerais e animais
- Geo-estéticas (Coelho & Ponce de Léon 2025; Krieger 2022; Ray 2019), incluindo vulcânicas e das ervas ditas daninhas
- Estéticas e “alianças líquidas” (Mendes & Garcia-Antón 2026)
- Narrativas de relacionalidade e métodos multiespécie
- Contracolonizar (Nêgo Bispo 2015)
- Arte como laboratório de pensamento (e não como representação)
- Cinema animista e montagens visuais anti-extrativistas e anti-especistas
3. Visões do Umbral
Como habitar o umbral e mover-se entre mundos? Neste eixo acolhemos as formas que excedem os preceitos dualistas do Plantationoceno/Capitaloceno – as geo-coreografias que nos conduzem ao alargamento de afinidades e alianças.
- Epistemologias do umbral
- “Dark ecology” (Morton 2016), deep time e temporalidades submersas
- Ecologia popular
- Agência não-humana e a redistribuição do sensível
- “Ruínas do Plantationoceno/Capitaloceno” (Tsing 2015)
- “Zonas intersticiais” (Gomez-Barris 2017), conhecimentos ribeirinhos e da beira-mar
- Imagens dialéticas (Benjamin 1940) e “peles de imagens” (Kopenawa 2010)
- Visões “ch’ixi” (Cusicanqui 2015)
- “Alianças afetivas” (Krenak 2022)
- “Florestania” (Krenak 2022) e “lutas com a floresta” (Milanez 2024)
Datas importantes:
25 de Maio | envio de propostas
30 de Junho | notificação de aceitação
18-20 de Novembro | conferência
Formatos de submissão:
1. Comunicações (pesquisas teóricas ou empíricas): sumário até 300 palavras
2. Intervenções artísticas (performances, leituras poéticas): memória descritiva até 300 palavras
3. Rodas de conversa, oficinas, caminhadas de escuta, cartografias afetivas: memória descritiva até 300 palavras
O sumário (em português, espanhol ou inglês) deve fazer-se acompanhar de uma biografia breve (até 100 palavras) para: counterimageconference@fcsh.unl.pt
>> Descarregar a chamada para comunicações (PDF) <<
Comissão organizadora
Inês Beleza Barreiros (ICNOVA — NOVA FCSH / CIAC — Universidade do Algarve)
Liliana Coutinho (IHC — NOVA FCSH / IN2PAST)
Maria do Carmo Piçarra (ICNOVA — NOVA FCSH)
Salomé Lopes Coelho (ICON — Utrecht University / ICNOVA — NOVA FCSH)
Sílvia Leiria Viegas (CIAC — Universidade do Algarve)
Teresa Castro (IRCAV — Sorbonne Nouvelle / ICNOVA — NOVA FCSH)
Teresa Mendes Flores (ICNOVA — NOVA FCSH)
Comissão Científica
Ana Lúcia Marsillac (Universidade Federal de Santa Catarina)
Bruno Mendes da Silva (CIAC, Universidade do Algarve)
Cristiana Bastos (Instituto de Ciências Sociais)
Filippo Di Tomasi (ICNOVA — NOVA FCSH)
Iacã Macerata (Universidade Federal de Santa Catarina)
Isabel Stein (ICNOVA — NOVA FCSH)
Leila Lehnen (Brown University)
Luís Trindade (IHC — NOVA FCSH / IN2PAST)
Margarida Brito Alves (IHA — NOVA FCSH)
Margarida Mendes (ICNOVA — NOVA FCSH)
María Gloria Robalino (Washington University St. Louis)
Maria Teresa Cruz (ICNOVA — NOVA FCSH)
Marita Sturken (New York University)
Maura Castanheira Grimaldi (ICNOVA — NOVA FCSH)
Mirian Nogueira Tavares (CIAC — Universidade do Algarve)
Patrícia Martins Marcos (University of Oklahoma)
Patrícia Martinho Ferreira (Brown University)
Paulo Nuno Vicente (ICNOVA — NOVA FCSH)
Rui Gomes Coelho (Durham University)
Susanne Knittel (ICON — Utrecht University)
Tempo
novembro 18 (Quarta-feira) - 20 (Sexta-feira)
Organizador
Várias instituições
