Pós-doutoramentos em Curso // A natureza e a evolução do debate sobre a eugenia, em Portugal, na “Época dos fascismos”

  • Investigador: Mario Ivani
  • Data de início: Março de 2012
  • Financiamento: Fundação para a Ciência e a Tecnologia
Resumo:

A investigação diz respeito à natureza e aos desenvolvimentos do debate sobre a eugenia em Portugal, ao longo dos anos de maior ligação entre salazarismo e fascismo italiano. Pretende-se reconstituir o contexto da particular efervescência cultural e ideológica, delineando ideias, projectos, interpretações e leituras dentro dos meios académicos e culturais que se envolveram com as «ciências da população», no mais amplo plano de modernização autoritária do Estado Novo.
Para Portugal dos anos Trinta e início dos anos Quarenta encarar o discurso da eugenia e das teorias raciais e coloniais implica também medir-se com o discurso da modernidade, entre racionalidade e burocratização, na edificação do Estado Novo. Aqui também as teorias eugénicas e demográficas tiveram recaídas importantes sobre o pensamento colonial, tal como sobre a definição do arquétipo do «homem novo».
A ideia desta investigação centra-se no aprofundamento da leitura feita em Portugal das teorias eugénicas, e portanto em identificar as peculiaridades nacionais que a disciplina assumiu. É nosso propósito inserir o caso português no mais amplo panorama internacional, não tratando-o como um caso isolado mas considerando-o integrado numa network científica transnacional e adoptando uma óptica comparativa.
Ao longo dos anos Trinta, além das escolas antropológicas do Porto e de Coimbra, uma dinâmica actividade teórica foi elaborada pelos médicos. À volta do director da Faculdade de Medicina do Porto, António de Almeida Garrett, e de João Porto, director da análoga Faculdade de Coimbra, agregou-se um núcleo de estudiosos que se referia explicitamente às orientações da eugenia italiana. Muita atenção foi dada à biotipologia de Nicola Pende, à demografia de Corrado Gini, ao debate sobre a criminologia.
Na Itália, o fascismo baseou a sua política sobre o crescimento quantitativo, mais do que qualitativo, conforme o slogan: «o número é potência». Rejeitada a eugenia positiva – decisão onde pesou a influência da Igreja – o fascismo cultivou amplamente a eugenia negativa através do programa de «defesa da raça». Em Portugal o interesse para com as políticas demográficas do fascismo teve ressonância até na imprensa: recusada a dimensão biológica do racismo fascista, a imprensa apresentou uma leitura “espiritual”, que fazia apelo ao conceito da latinidade comum.