Linhas Investigação // História e Memória: Memórias Coletivas, História do Presente e História Oral

  • Coordenação:
    Manuel Loff
  • Apresentação:

    Nos últimos 30 anos, assistiu-se, particularmente na Europa Ocidental, à plena integração no campo científico da História (e de outras ciências sociais), dos estudos da Memória, da subjetividade e da intersubjetividade (Passerini, 1988), dos lieux de mémoire (Nora, 1984-92). Constituindo registos diferentes do conhecimento do passado, a História e (aquilo que aqui designaremos como) a Memória são ambos socialmente determinados, o que as coloca, forçosamente, num mesmo plano de significação para a grande maioria dos atores sociais.

    A investigação histórica, especialmente a aplicada ao período contemporâneo, sustentada sobre métodos rigorosos e verificáveis de levantamento documental e de fixação de objetos historiografáveis, produz representações do passado que, sobretudo quando se trata do passado recente, tendem a entrar em confronto com discursos memoriais produzidos na sociedade por grupos que retiram da memória histórica grande parte da sua identidade e da sua coesão. De facto, a identidade histórica das sociedades é inevitavelmente submetida a usos políticos da memória coletiva (Gallerano, 1995) em todas as suas expressões sociais, incluindo fenómenos de revisão intencionada, com motivações especificamente políticas e ideológicas, mas também com outras de natureza mais ampla (cultural, geracional, …), dos mais variados ciclos da vida coletiva. A(s) memória(s) coletiva(s), são, portanto, um campo de permanente luta social, cultural e, portanto, política, dentro do qual a historiografia se vê envolvida. Se a investigação histórica não se deve confundir com, muito menos esgotar em, um instrumento deste tipo de disputas, ela não pode ignorá-las e presumir, como produto científico que é, dever desenvolver-se acima ou à margem dos discursos memoriais que sobre o passado - sobre o mais recente mas também sobre passados relativamente remotos – os grupos sociais (re)produzem, por sua vez segmentados pelas diferentes gerações, identidades de género e/ou étnicas, culturas políticas e religiosas... A História não prescinde (e não poderia nunca fazê-lo) da Memória, definida esta como repositório vivo e dinâmico das perceções e do passado fixadas no seio dos grupos que nos edificaram enquanto indivíduos e que retiram a sua força da comunidade afetiva (Halbwachs, [1925], 1950).

    Na historiografia e, particularmente, nas estratégias de divulgação histórica através dos mais variados instrumentos de atuação no espaço público (e particularmente através dos média), desenvolvem-se, também aqui inevitavelmente, diferentes políticas da memória. O campo em que tem trabalhado a generalidade dos membros desta linha de investigação é o da história da violência e opressão exercida pelo Estado ao longo do séc. XX. A relação da sociedade com a maior ou menor visibilidade e impacto social da investigação que se centra nestes aspetos do passado, a sua articulação com os discursos memoriais presentes na esfera pública, as próprias públicas desenvolvidas pelos Estados pós-autoritários relativos àqueles fenómenos e períodos constituem elementos decisivos no reforço ou constrangimento do funcionamento dos regimes e das sociedades democráticas (Vinyes, 2009).

    Vive-se aqui, portanto, um risco inevitável de presentificação do passado. Neste contexto, o trabalho do historiador contemporâneo, e designadamente o da história recente e do Tempo Presente (Institut d'Histoire du Temps Présent, 1993; Hartog, 2003), deve articular uma metodologia específica, rigorosa, em que participam contribuições essenciais da Antropologia e da Sociologia. Dentro dela, a História Oral é um dos instrumentos centrais, um campo de investigação a que se tem reconhecido, por fim, o estatuto de uma (sub)disciplina própria do campo historiográfico, imprescindível para convocar um conjunto de fontes históricas que um neopositivismo antiquado tendeu a menosprezar durante demasiado tempo.

     

    Membros:

    Gilberto Grassi Calil (Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Brazil)

    Miguel Cardina (Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra; IHC/FSCH/UNL, Grupo de Trabalho Cultura, Identidades e Poder, Portugal)

    Lucileide Costa Cardoso (Universidade Federal da Bahia, Brazil)

    Julián Casanova (Universidad de Zaragoza, Spain)

    Álvaro Cúria (IHC/FSCH/UNL, Grupo de Trabalho de História Política Comparada - Regimes, Transições, Colonialismo e Memória, Portugal)

    Ana Sofia Ferreira (IHC/FSCH/UNL, Grupo de Trabalho de História Política Comparada - Regimes, Transições, Colonialismo e Memória, Portugal)

    Paula Godinho (IHC/FSCH/UNL, Universidade Nova de Lisboa, Portugal)

    João Madeira (IHC/FSCH/UNL, Grupo de Trabalho de História Política Comparada - Regimes, Transições, Colonialismo e Memória, Portugal)

    Stéphane Michonneau (Université de Lille-3, France)

    Carmen Molinero (Centre d'Estudis del Franquisme i de l'Èpoque Democràtica, Universitat Autònoma de Barcelona, Spain)

    Bruno Monteiro (IS-FLUP, Portugal)

    Cristina Nogueira (IHC/FSCH/UNL, Portugal)

    Xosé Manuel Núnez-Seixas (Ludwig-Maximilians-Universität, Germany; Universidade de Santiago de Compostela, Spain)

    Filipe Piedade (IHC/FSCH/UNL, Portugal)

    Carla Rodeghero (Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Associação Brasileira de História Oral, Brazil)

    Maria Alice Samara (IHC/FSCH/UNL, Grupo de Trabalho Cultura, Identidades e Poder, Portugal)

    Josep Sánchez Cervelló (Universitat Rovira i Virgili, Tarragona, Spain)

    Carlos Zacarias de Sena Júnior (Universidade Federal da Bahia, Brazil)

    Carla Luciana Silva (Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Brazil)

    Luciana Castro Soutelo (IHC/FSCH/UNL, Portugal)

    Pere Ysàs (Centre d'Estudis sobre les Èpoques Franquista i Democràtica, Universitat Autònoma de Barcelona, Spain)

    Célia Costa Cardoso (Universidade Federal de Sergipe, Brasil).

    Tiago Matos Silva (IHC-FCSH/UNL)

    Silvestre Lacerda (Director-Geral do Livro, dos Arquivos e das Biliotecas)

    Vanessa Almeida (IHC-FCSH/UNL)

  • Parcerias:

    Os investigadores desta linha estabeleceram duas redes científicas principais:

    1) A red(e) ibero-americana resistência e (y) memória (RIARM), cujo encontro fundador teve lugar em Lisboa, então no âmbito do IELT da FCSH, onde Paula Godinho era investigadora. O 2.º encontro teve lugar na Universidade La Republica, em Montevideu (Uruguai), com a participação de um número significativo de investigadores desta linha, juntamente com vários colegas uruguaios, argentinos, chilenos, mexicanos e brasileiros. O 3.º encontro está programado para a Universidad de Valparaíso, no Chile, em 2017.

    2) Foi assinado em 2015 o convénio de colaboração entre o IHC/NOVA (cuja colaboração é coordenada por Manuel Loff) e o European Observatory On Memories (EUROM) da Universitat de Barcelona e da Fundació Solidaritat, assinado em setembro de 2015.
  • Principais Actividades:

    O programa para 2016 da linha História e Memória: Memórias Coletivas, História do Presente e História Oral organiza-se em torno de dois eixos centrais: por um lado, as atividades específicas da linha, gizadas pelo coordenador ou por investigadores da linha e, por outro, as atividades de investigadores internacionais que pertencem à linha, que estarão presentes em vários encontros e projetos internacionais. De entre estes, fazemos referência ao seguinte:

    1) XIII Encontro Nacional de História Oral – História Oral, Práticas Educacionais e Intediscilplinaridade – UFRGS,  de 1 a 4 de maio de 2016 . O evento promovido pelo Programa de Pós-Graduação em História da UFRGS e pela Associação Brasileira de História Oral (presidida pela investigadora desta linha Carla Simone Rodeguero) será realizado em Porto Alegre e tem público estimado de mil pessoas, provenientes de todos os estados brasileiros e de países do Mercosul. Carla Simone Rodeguero é presidente da Comissão Organizadora e proferirá a Conferência de Encerramento, intitulada “História Oral, desafios da educação e da interdisciplinaridade”.

    Em 2016 os investigadores agregados a esta linha mantêm a publicação de artigos nas publicações nacionais e internacionais, capítulos de livros e livros, como se pode verificar na tabela 4 (Indicadores – Previsão).

    2) Projeto em processo de avaliação: Transiciones a la democracia en el sur de Europa y en América Latina: España, Portugal, Argentina y Chile (Entidad financiadora: MINECO, DGI, Proyecto HAR2015-63657-P). Número de investigadores participantes: 15 (C. Molinero, P.Ysàs, M. Marín, F. Vilanova, D. Ballester,  J. Tébar, M. Loff, P. Godinho, L. Alonso, G. Aguila, I. Goicovic, R. Araya, C. Ferrer, J. Gimeno, J. Estarlich)

    Para o ano de 2016 estão previstas várias publicações em diversos formatos:

    E-books (IHC, disponíveis no RUN - FCSH):

    1. Espaços, Redes e Sociabilidades (Coords. Maria Alice Samara, Paula Godinho e Joana Dias Pereira), no primeiro semestre de 2016.

    2. Violência Política no Século XX (Coords. Pau Casanellas e Ana Sofia Ferreira), no segundo semestre de 2016.

     

    E-books

    1. Portugal, 40 anos de democracia (Coords. Isabel Menezes, Manuel Loff), 2016.

    2. From Decolonisation to Post-Colonialism: a Global Approach (Coords. Manuel Loff et al.), 2016.

     

    Em relação à formação avançada, o coordenador da linha, Manuel Loff, tem agendado o Curso de Formação Fascismo e Memória [Título Provisório], que terá lugar na Universidade Estadual do Ceará, 26-28.7.2016. A investigadora Paula Godinho (com a colaboração de outros investigadores) tem como objectivo organizar mais um curso de verão na mesma linha do de 2015 (Curso de verão História oral, usos da memória e práticas do património).

    Em relação às atividades específicas da linha Manuel Loff, Paula Godinho, Vanessa de Almeida e Maria Alice Samara (a que se juntaram outros investigadores nas comissões organizativas e científicas) preparam um colóquio internacional subordinado ao tema Mulheres: da resistência à clandestinidade [título provisório] que terá lugar em Lisboa no segundo semestre de 2016.