Ongoing Projects // Encontros Franco-Salazar.Política Externa e Relações Peninsulares durante as Ditaduras: 1942-1963. POCI/HAR/60402/2004

  • Main researchers:
    Maria Inácia Rezola y Palacios Clemente
  • Team:
    Maria Inácia Rezola e Filipe Costa Ramires.
  • Founded by:
    Fundação para a Ciência e Tecnologia
  • Start date:
    01 de Setembro de 2005
  • Duration:
    18 meses
  • Brief:
    Com o presente projecto pretende-se estudar os sucessivos encontros entre Francisco Franco e Oliveira Salazar que, iniciados na década de 40 se prolongaram até aos anos 60. Pretende-se explorar e desenvolver uma nova perspectiva sobre as relações peninsulares e a política externa de Portugal e Espanha e, simultaneamente, e sob esse ponto de vista, reinterpretar o “perfil” dos dois ditadores e o seu papel histórico.

    Ao longo do século XX, as relações entre Portugal e Espanha nem sempre foram pacíficas. À tensão que caracteriza os momentos subsequentes à implantação da República portuguesa em 1910, segue-se, na década de 20, uma "pacificação". No entanto, a queda da Ditadura de Primo de Rivera e da Monarquia, na sequência do triunfo eleitoral da República em Espanha, em Abril de 1931, num momento em que a Ditadura Militar portuguesa atravessa uma fase delicada de clarificação e afirmação, gera um novo mal estar.
    A difícil convivência entre dois regimes de sinal oposto, dos primeiros anos da década de 30, acaba por se traduzir numa atitude de mútua desconfiança e ataques "velados": as iniciativas agressivas da República espanhola e o seu apoio aos emigrados políticos portugueses têm resposta directa no apoio de Salazar aos Nacionais, na ruptura de relações com o governo de Madrid (Outubro de 1936) e no reconhecimento do Governo de Burgos (Abril de 1938). Estes anos da guerra civil (1936-1939) são vividos com particular ansiedade pelo Estado Novo, provocando, na expressão de Fernando Rosas, a "crispação fascizante" do regime português que, ameaçado, reforça o seu carácter autoritário.
    A vitória de Franco permite a abertura de um novo momento nas relações peninsulares. O enorme isolamento diplomático em que a Espanha se encontra transformam Portugal num "parceiro" particularmente aliciante. Com a assinatura, a 17 de Março de 1939, do Tratado de Amizade e não Agressão luso-espanhol (Pacto Ibérico) assinala-se o início de uma nova fase nas relações peninsulares de que os encontros entre Franco e Salazar serão apenas mais uma expressão.
    Com o presente projecto pretende-se estudar os sucessivos encontros entre Francisco Franco e Oliveira Salazar que, iniciados na década de 40 se prolongarão até aos anos 60. Em última análise propomo-nos fornecer uma nova perspectiva sobre as relações peninsulares e a política externa de Portugal e Espanha, e simultaneamente, e sob esse ponto de vista, reinterpretar o "perfil" dos dois ditadores e o seu papel histórico.
    No actual estado de conhecimento sobre esta matéria, esta investigação revela-se fundamental para o aprofundamento do  estudo das relações políticas e diplomáticas das ditaduras ibéricas. Por isso mesmo, e paralelamente, propomo-nos iniciar a constituição de uma base de dados e de um arquivo digital sobre o tema.

    ESTADO DA QUESTÃO
    As relações entre Portugal e Espanha nos primeiros anos do século XX têm sido alvo da atenção de investigadores e historiadores de ambos os países. O espanhol Hipólito de La Torre Gómez dedica-lhe várias obras, analisando sistemática e demoradamente o período de 1910 a 1936 em Conspiração contra Portugal (1910-1912). Lisboa, Livros Horizonte, 1978; Na Encruzilhada da Grande Guerra. Portugal- Espanha 1913-1919. Lisboa, Editorial Estampa, 1980; Do "Perigo Espanhol" à amizade Peninsular. Portugal - Espanha 1919-1930. Lisboa, Editorial Estampa, 1985; A Relação Peninsular na Antecâmara da Guerra Civil de Espanha (1931-36). Lisboa, Edições Cosmos, 1998.
    César de Oliveira, por seu lado, deixou-nos outras perspectivas sobre os anos 30 nomeadamente sobre os anos da II República em Portugal e a II República de Espanha (1931-1936). Lisboa, Perspectivas e Realidades, 1985 ou em Salazar e a Guerra Civil de Espanha Lisboa, O Jornal, 1987. Sobre o mesmo tema a obra de Iva Delgado, Portugal e a Guerra Civil de Espanha (Lisboa, Publicações Europa-América, s.d.) constitui um clássico.
    Num registo mais abrangente Ana e António Pedro Vicente, Carlos Gaspar, César de Oliveira ou o espanhol Juan Carlos Jimenez Redondo forneceram-nos trabalhos de inegável interesse e incontornáveis no estudo das relações Portugal-Espanha no Século XX.

    Como exemplo recordamos alguns dos títulos produzidos por estes autores:
    GASPAR, Carlos, "Espanha, relações com a" in Dicionário de História da Portugal, coord. de António Barreto e Maria Filomena Mónica, vol. 7, suplemento A/E. Porto, Figueirinhas, 1999, p. 648-657.
    JIMENEZ REDONDO, Juan Carlos, Franco e Salazar: as relações luso-espanholas durante a Guerra Fria. Lisboa, Assirio e Alvim, 1995
    Idem, El ocaso de la amistad entre las Dictaduras ibéricas (1955-1968). Mérida, UNED, 1996.
    OLIVEIRA, César, Cem anos nas relações luso-espanholas. Lisboa, Cosmos, 1995.
    VICENTE, Ana, Portugal visto pela Espanha. Correspondência diplomática 1939-1960. Lisboa, Assírio e Alvim, 1992.
    VICENTE, António Pedro, Espanha e Portugal. Um olhar sobre as relações Peninsulares no séc. XX. Lisboa, Tribuna, 2003 .
    Em suma, não se pode dizer que o tema careça de bibliografia. Esta multiplicidade de contributos deixa a manifesto a importância do estudo das relações peninsulares sobre a qual no propomo-nos apresentar uma nova perspectiva. Porque, e apesar da primeira abordagem apresentada por Ana Vicente na obra supra citada , os sete encontros entre os dois ditadores ibéricos estão, em grande medida, por estudar.